Sob a promessa de transformação tecnológica e soberania digital, o Governo do Amazonas assinou acordo com o Instituto Brasileiro de Soberania Digital (IBSD) que traça um plano inicial de estudos para a construção de data centers (centro de dados) de alta intensidade no Amazonas. O documento foi obtido pela Tipiti por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Oficialmente chamado de Acordo de Cooperação Técnica (ACT), o texto foi assinado pelo então governador Wilson Lima (União Brasil), que deixou o cargo para disputar uma vaga no Senado Federal. A assinatura ocorreu no seminário “Amazonas – Polo para Datacenters Soberanos e Sustentáveis”, realizado em Manaus (AM), em 17 de dezembro de 2025.

Não houve repasse de recursos financeiros entre o governo estadual e o IBSD. De acordo com o texto, o objetivo é desenvolver, implementar e disseminar “ações de transformação e soberania digital, e governança de dados, com foco em iniciativas tecnológicas e ações que permitam a sustentabilidade energética”.
Entre as ações que devem ser entregues estão: diagnóstico e avaliação de maturidade digital dos serviços públicos estaduais e da infraestrutura digital do estado, a formulação e implementação de planos de Governança de Dados e políticas públicas digitais e a execução de projetos pilotos que fomentem infraestrutura digital local alinhada à soberania tecnológica.
A governança de dados é a forma como o estado gere e protege os dados públicos no ambiente digital. O conceito está ligado ao direito fundamental à proteção de dados, reconhecido na Constituição Federal e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A maturidade digital é o nível ou estado de desenvolvimento tecnológico e organizacional de uma instituição que pode ser medido e avaliado por meio de diferentes critérios.
“Todas as iniciativas voltadas à efetivação das ações previstas neste Acordo devem se basear em sustentabilidade energética e, caso necessário, na busca pela construção de data centers de alta densidade e alta eficiência energética”, diz o documento.
O ACT tem validade de 1 ano e pode ser prorrogado. No pedido de LAI, a reportagem solicitou do estado o acordo, notas técnicas, pareceres jurídicos e estudos de viabilidade, assim como o plano de trabalho e o cronograma de execução do projeto, indicando os municípios ou áreas afetadas pela construção dos centros de dados. Os últimos três itens não foram concedidos.
O advogado Hamilton Neto, doutorando em Direito Ambiental pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), afirma que o acordo deixa claro o interesse do governo em construir centros de dados de alta densidade, ou seja, aqueles com infraestrutura de grande escala. Mas, o advogado ressalta que o ACT é ainda um primeiro passo deste processo. “É uma preparação para realizar a construção por meio de outros instrumentos, onde os estudos podem culminar em contratos administrativos de obras”.
Ele explica que, apesar de ser um primeiro documento, o ACT poderia apresentar mecanismos concretos que serão utilizados para atingir seus objetivos. “Eles poderiam apontar no ACT as eventuais necessidades que um polo de data centers pode trazer para a região, como a possível necessidade de novas vias, quais estudos serão feitos e em que área, além de ter integrado órgãos ambientais como o Ibama. Nada disso é apresentado e isso revela uma fragilidade do acordo e do antigo governo”, comenta o advogado.
O documento não informa se a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) irá acompanhar os processos ou se consultas às organizações da sociedade civil serão realizadas. Sobre os impactos ambientais, diz que os planos devem conter indicadores de impacto e que as partes devem buscar a redução deles.
Criado em agosto de 2025, o IBSD tem sede na cidade de Curitiba, no Paraná, e é presidido por Fabrício Zanini, ex-presidente do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI). Segundo o site oficial da instituição, o objetivo é “garantir a autonomia tecnológica e a independência do Brasil na era da informação”.
Nele, o IBSD divulga o Índice Brasileiro de Maturidade Digital, serviço que oferece a estados e municípios, como o Amazonas. Ao navegar pelo site é possível observar que o serviço está disponível para compra na página da AWS Marketplace, loja online da Amazon Web Services (AWS), empresa multinacional de tecnologia e comércio que acumula centenas de centros de dados ao redor do mundo.
Questionado pela Tipiti sobre quais metodologias são usadas nos pareceres para o Governo do Amazonas e como o IBSD garante a independência de suas recomendações. O instituto retornou informando que houve o acordo e que suas metodologias são “fundamentadas por esta visão integrada do desenvolvimento econômico, da inclusão social e da sustentabilidade ambiental”.
Também reafirmou que atua de forma independente “na produção de conhecimento e inteligência estratégica para empresas privadas e órgãos públicos”.
Procurados pela Tipiti, a Secretaria de Estado de Energia, Mineração e Gás (Semig), a Secretaria de Estado de Administração e Gestão (SEAD) e a Sema não responderam os questionamentos até a publicação desta reportagem. Elas estavam envolvidas na assinatura também, como representantes do governo. O ex-governador Wilson Lima também foi procurado, mas não respondeu.
Os data centers de Manaus
Além desses estudos da IBSD, a cidade de Manaus já tem dois data centers em funcionamento. Em 2024, o Grupo ClickIP inaugurou um centro de dados de médio porte na cidade com capacidade para 500 KVA e 240 quilowatts dedicados ao espaço de Tecnologia da Informação. O local atua como provedor de internet e atende empresas, instituições e órgãos públicos na região.
Outro centro de dados presente na cidade é o da Prodam (Processamento de Dados do Amazonas), órgão de tecnologia do Governo do Amazonas, que atende instituições do estado como a Procuradoria Geral do Estado (PGE), a Secretaria de Segurança Pública (SSP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), além de empresas privadas como TV Lar e Salux Tecnologia.
Um centro de dados é o ‘coração’ físico e material da ‘nuvem’. É um local que abriga diversos computadores e servidores e funciona de forma ininterrupta. Ele é responsável por armazenar e processar grandes volumes de informações, como imagens de satélite, sites e folhas de pagamento. Além de executar algoritmos e inteligência artificial.
Existem diferentes formas de organizar e distribuir essa infraestrutura, que variam de acordo com o seu tamanho, objetivo e proximidade do usuário. Os mais conhecidos são os Hyperscalers, infraestrutura de grande escala que atuam no processamento massivo de dados, como o treinamento de inteligência artificial. Já os Edges (EDS) são instalados mais próximos das regiões de consumo para processar informações, conectar usuários e intermediar serviços de forma mais rápida.
Os computadores e servidores geram muito calor e, por isso, os data centers precisam ser resfriados continuamente para evitar falhas e danos aos equipamentos. O resfriamento pode ser feito principalmente por meio de sistemas de ar e líquidos.
O resfriamento a ar utiliza ar-condicionado e técnicas como “Corredor Frio/Corredor Quente”, onde o ar gelado é soprado na frente dos racks e o ar quente é extraído por trás. No resfriamento líquido, a água ou líquidos dielétricos (substância isolante) são utilizados para absorver e transportar o calor dos equipamentos.
Esse é um dos pontos mais sensíveis apontados por especialistas, porque a água precisa vir de algum lugar e o calor que ela gera alcança outros espaços.
Impactos no território
Um estudo do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde das Nações Unidas, publicado em junho deste ano, revela que ao redor do mundo os centros de dados utilizaram cerca de 448 TWh de eletricidade em 2025,. Segundo o documento, se os centros de dados fossem um país, esse nível de consumo elétrico os colocaria na 11ª posição global. Dessa forma, a demanda de eletricidade dos centros de dados poderá praticamente dobrar, atingindo 945 TWh até 2030..
Eduardo Nakamura, doutor em Ciência da Computação e diretor do Instituto de Computação da Universidade Federal do Estado (Ufam), explica que os centros de dados consomem menos energia do que consumiam há 10 anos. Mas, apesar da evolução, eles ainda possuem uma alta demanda de consumo de energia elétrica.
“Esse tipo de infraestrutura precisa de uma energia elétrica estável e a gente sabe que essa não é a realidade no Amazonas. Isso ocorre por diversos motivos, muitas vezes ditados pela própria natureza. São cabos que passam pela mata, árvores que caem, além de muita chuva. Para os centros de dados, a instabilidade elétrica pode ser contornável com o uso de bancos de baterias* (no-breaks), por exemplo. Para os moradores, isso [a instabilidade] pode ser evitado com uma subestação própria que dê conta do consumo do centro de dados e não gere falta de energia elétrica no estado”, disse.
Cynthia Picolo, advogada e diretora-presidente do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN), conta que há também uma preocupação com o aumento do custo da energia para os moradores após a instalação da infraestrutura.
Nos Estados Unidos, uma análise da Bloomberg, empresa de tecnologia e mídia focada no mercado financeiro, apontou que, em 2025, o custo da eletricidade em áreas próximas a data centers chegou a ficar até 267% maior do que cinco anos antes.
“É uma contrapartida negativa para a população que deveria ser custeada pelas empresas envolvidas na construção dos centros de dados. Por isso, precisamos ter salvaguardas para proteger as comunidades”, afirma Picolo.
Quando se fala consumo de água e centro de dados, a situação também é crítica. De acordo com as Nações Unidas, para manter esses locais por um ano seria necessário 9,3 trilhões de litros de água, uma quantidade que atenderia todas as necessidades domésticas básicas de água de 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana por um ano.
O advogado Hamilton Neto é um dos autores do artigo “A nuvem pesa: Expansão dos data centers para a região amazônica e os impactos ambientais na era da informação”. Neto explica que os data centers exigem uma grande utilização de água porque o espaço é formado por computadores que esquentam muito durante o seu funcionamento.
“Então, a água é muito importante no processo de resfriamento do local. No caso do Amazonas, embora a região seja muito rica em recursos hídricos, os projetos para a construção de um polo de data centers precisam considerar os riscos ambientais que podem afetar a realidade local”, diz.
A questão é que o Brasil não possui uma lei federal para regular os centros de dados. As empresas atuam por meio de normas dispersas como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Para que exista uma real soberania digital, é necessário primeiro ter soberania sobre os recursos naturais que sustentam e constroem os data centers (como mineração, energia renovável e território), uma vez que a infraestrutura digital e tecnologias como a inteligência artificial dependem essencialmente deles. Sem balizas altas para que as empresas utilizem esses recursos oferecendo contrapartidas ao território nacional, não há soberania’’, ressalta a advogada Cynthia Picolo.
*bancos de baterias: Equipamento que protege e mantém em funcionamento dispositivos eletrônicos em situações de oscilação ou ausência da rede elétrica. Possui um sistema de estabilização para evitar a queima e o mau funcionamento dos aparelhos.





